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Mostrando postagens de Maio, 2015

O Donzelo - Literatura Axé -

O Donzelo.                   Bruno não era, de todo, feio. Estava acima do peso, é verdade, mas não chegava à obesidade. Não era muito alto, contudo, possuía uma estatura acima da média. Tinha a barriga um pouco avantajada, porém, nada que lhe tirasse a elegância. Cabelos ele os tinha e cortava-os baixinho por ser mais prático o asseio. Era limpo,  alinhado e vestia-se e portava-se de forma tímida. Aliás, o grande defeito de Bruno era aquele acanhamento. Bruno já beirava os trinta anos e mantinha-se virgem. Não que não tentasse, vez por outra, uma paquera. Porém, bastava uma mulher se aproximar que seu pensamento perdia o sentido lógico e vinha-lhe uma gagueira súbita. Ele havia tentado resolver o problema. Fez análise, consultou-se com fonoaudiólogos, procurou por mães-de-santo, benzedeiras, enfim. Restou apenas apelar para uma profissional. Para escolher a dama, Bruno pediu a um amigo que intercedesse no contrato amoroso. Temia entrar em sites pornográficos ou a frequentar c…

A Secretária. Lit. Axé.

A Secretária.


          Gosto de ser franco. Confundem-me como rude. Diz meu filho que sou sutil como um rinoceronte. Talvez o seja, não sei bem. Outros me afirmam que até meus elogios são ácidos.  Não sei dourar a pílula. Não uso eufemismos. Digo a verdade e a ingratidão da verdade não me ofende. E tudo para mim é muito substancial. Eu disse você é bela, como Caymmi disse: “o Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeada de areia branca”, assim, simples. E ela agradeceu. E eu disse que ela não precisava me agradecer e sim aos pais dela ou a Deus. E eu concluí a frase dizendo com a mesma simplicidade: sua a beleza não é mérito seu, e completei: são os genes. E o riso fácil dela se apagou. Ela me olhou com desdém, talvez pensasse: “quem ele pensa que é?” Eu disse talvez pensasse, não tenho a capacidade de ler mentes. E perguntei se eu a ofendi, ela disse não, não senhor... E eu me calei. Bebi o último gole da dose do conhaque no copo. Imaginei pelo uso da palavra senhor uma formal maneira de t…

A Construção do Sonho. Lit. Axé - Ariovaldo Matos

A Construção do Sonho Uma frágil minhoca que amava e ao mesmo tempo temia o sol. Amava-o quando amornava a terra. Temia-o , a supor que por ele seria esturricada se saísse de sua toca, se ousasse mirá-lo. Um dia, manhã, decidiu-se pelos perigos e esperanças da liberdade que exige luta. E caminhou, vencendo, em incríveis batalhas, os fantásticos animais de que fala Lautréamont , em “Maldoror”: caranguejos, fêmeas de e outros monstros marinhos, dragões alados, severos buldogues babando sangue, búfalos roídos por víboras, hipogrifos descomunais – e tudo quanto seja capaz de habitar os imaginados zoos dos parafrênicos, como nós somos. Não importa. A minhoca, embora frágil, soube usar astúcia e sobre eles triunfou.
Desgraçadamente, porém, a esperança não completou seu ciclo: logo ao surgir das entranhas da terra, exausta após tantos combates, um alguém, de marrons botas assassinas, a esmagou, impedindo não se sabe por quê. Talvez alguém, como nos sugeriu Lautréamont, “entregue, em um momen…

Praga da Namorada - Literatura Axé

Quinta-feira, pós-carnaval,  em Salvador- BA. Acordei cedo. Queria chegar ao trabalho antes do chefe. Banhei-me, vesti-me e bebi, de gute-gute, um café com leite. Buscava uma maneira de compensar a falta na quarta-feira de cinzas quando não fui nem trabalhar. Tinha que recuperar minha imagem de bom profissional. Tudo pronto, Eu, fresquinho e cheiroso, peguei a chave do carro e, no lobby do elevador, me veio àquela vontade de ir ao banheiro. A princípio pensei: “vai dar tempo de chegar ao escritório. Lá eu me alivio” – (Como já disse, havia queimado o trabalho na quarta-feira. Não quis perder Carlinhos e Ivete no arrastão). Estava convicto de que na quinta-feira, chegando cedo, me redimiria com o chefe. – Um ranzinza mal amado que detesta o carnaval. –  Que nada! A demora do elevador me fez sentir que não daria tempo de chegar ao escritório com aquela vontade danada de evacuar. Então, retornei ao apartamento para ir apressado ao sanitário. Como dizem os norte-americanos, “par…

Síndrome de Facebook

Síndrome de Facebook.

Fui procurar um psiquiatra, era a primeira vez que aceitava uma sugestão tão vexatória.  Ao chegar à sala de recepção impressionou-me o tom pastel da parede mostarda claro, a música ambiente e a calma inspirada pelo local. De cara percebi na parede réplica de um quadro de Diego Rivera e outra de Hieronymus Bosch, que me diziam, por dedução, que os psiquiatras eram PT.  Os direitistas preferem os clássicos renascentistas ou barroco, de preferência Velázquez . Os radicais de esquerda dão preferência a Miró, Dali, Van Gogh e Picasso. Após deleitar-me com as obras de arte caminhei até a recepcionista que me perguntou se era minha primeira consulta. Respondi que sim. Ela digitou algo no notebook e Dr. Eugenio Lino apareceu na recepção para indicar-me sua colega, Dr. Nadia.  Alegou ser melhor eu ser analisado por uma mulher. Coisa deFreud. Ótimo, pensei. Esta minha síndrome é coisa moderna e uma mulher poderá me entender melhor. Entrei no consultório e sentei-me na pol…