Já li que o
diabo um dia subiria à terra para fundar sua igreja, e, assim, como todo
adolescente, encher o saco do velho pai, Deus, e jogar merda no ventilador.
Então o Tinhoso
pensou — por que não dar a poucos homens os prazeres que tanto almejam em troca
das almas dos desprovidos sonhadores e fanáticos?
E embutiu-se da
ideia de liberdade total, e vestiu-se com uma “calça velha, azul e desbotada” e
proclamou que fundaria, na terra das Américas, sua própria igreja, (essa ideia
não é minha, é de *Machado de Assis), e resolveu assim fazê-lo.
Proclamou que os
homens que o aceitassem como o único senhor teriam “as delícias da terra, todas
as glórias e os deleites mais íntimos”. Então o Cabrunco iniciou o planejamento
de sua doutrina, e resolveu que a história, base da realidade era pura
fantasia, a terra seria plana e centro do universo, como contava num antigo
livro que já era adorado por muitos. Pensou que as virtudes deveriam ser substituídas
por outras mais cínicas e deslavadas.
A soberba, a
luxúria, a preguiça, assim também a avareza, mãe da economia, e a ira, (que os mais
fortes imporiam aos mais fracos), também a gula, — que fizera de Baco o Deus do
prazer, do êxtase e da boemia.
O Demônio também
lembrou da inveja, origem da prosperidade infinita, e, assim, o Belzebu, com
grandes golpes de eloquência, mudou toda a ordem das coisas. Não mais “O Cristo”
sacrificado na cruz seria honrado, mas sim o Povo de Israel que o crucificara e
que por hora matava mulheres, idosos e crianças desarmadas para rouba-lhes as
terras.
Mas Satanás não
se deu por satisfeito e apostou na fraude e na mentira para outro pilar de sua
Igreja, neste ínterim teria todo apoio da imprensa e de seus jornalistas por todo
o ocidente.
Que seus Bispos
e Pastores, entrassem para política a fim de forjar suas leis. Que a venalidade
fosse usada e abusada. Já que a venalidade “era um exercício de um direito superior
a todos os direitos”.
Argumentava, o
paladino do mal que: “se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o
teu chapeu, cousas que são mais do que tuas por uma razão jurídica e legal, mas
que em todo caso estão fora de ti, como é que não podes vender tua opinião, o
teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais que tuas, porque são tua
própria consciência, isto é, é tu mesmo? Pois não há mulheres que vendem teus
cabelos? Não pode um homem vender uma parte de teu sangue para transfundi-lo a
outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão este privilégio,
por que nega-lo ao caráter, à porção moral do homem?
Mas não se
esqueça de ser hipócrita, — pregava sorrindo, — de fingir defender tua amada
terra, teu país, quando queres, na verdade, iludir tuas ovelhas. E para
arrematar sua nova ordem, definiu o Satã, “cortar toda solidariedade humana.
Com efeito, o amor ao próximo era um obstáculo grave a sua instituição”.
Afirmou que essa regra “era uma simples invenção de parasitas e negociantes
insolváveis; não se deve dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos ódio
ou desprezo.” Unicamente dever-se-ia, no máximo, amar as mulheres dos outros,
porque este amor era pura e simplesmente um amor ao próprio prazer e por último
sacramentou, tire o máximo que puderes do povo, dos seus discípulos, por quanto
mais o sofrimento é vivido, mais terão que recorrer a mim.
E assim fez-se a nova religião.
*1 - Qualquer semelhança com os templos
evangélicos é mera coincidência.
*2 – Texto é baseado com “chupadas” do
conto de Machado de Assis “A Igreja do Diabo”.
Chupada é um antigo vernáculo muito
usado em publicidade e propaganda que dizia que, na prática, “nada se cria,
tudo se copia”, né?

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