Nova fé...

                                Ilustração captada do Pinterest
 

Já li que o diabo um dia subiria à terra para fundar sua igreja, e, assim, como todo adolescente, encher o saco do velho pai, Deus, e jogar merda no ventilador.

Então o Tinhoso pensou — por que não dar a poucos homens os prazeres que tanto almejam em troca das almas dos desprovidos sonhadores e fanáticos?

E embutiu-se da ideia de liberdade total, e vestiu-se com uma “calça velha, azul e desbotada” e proclamou que fundaria, na terra das Américas, sua própria igreja, (essa ideia não é minha, é de *Machado de Assis), e resolveu assim fazê-lo.

Proclamou que os homens que o aceitassem como o único senhor teriam “as delícias da terra, todas as glórias e os deleites mais íntimos”. Então o Cabrunco iniciou o planejamento de sua doutrina, e resolveu que a história, base da realidade era pura fantasia, a terra seria plana e centro do universo, como contava num antigo livro que já era adorado por muitos. Pensou que as virtudes deveriam ser substituídas por outras mais cínicas e deslavadas.

A soberba, a luxúria, a preguiça, assim também a avareza, mãe da economia, e a ira, (que os mais fortes imporiam aos mais fracos), também a gula, — que fizera de Baco o Deus do prazer, do êxtase e da boemia.

O Demônio também lembrou da inveja, origem da prosperidade infinita, e, assim, o Belzebu, com grandes golpes de eloquência, mudou toda a ordem das coisas. Não mais “O Cristo” sacrificado na cruz seria honrado, mas sim o Povo de Israel que o crucificara e que por hora matava mulheres, idosos e crianças desarmadas para rouba-lhes as terras.

Mas Satanás não se deu por satisfeito e apostou na fraude e na mentira para outro pilar de sua Igreja, neste ínterim teria todo apoio da imprensa e de seus jornalistas por todo o ocidente.

Que seus Bispos e Pastores, entrassem para política a fim de forjar suas leis. Que a venalidade fosse usada e abusada. Já que a venalidade “era um exercício de um direito superior a todos os direitos”.

Argumentava, o paladino do mal que: “se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapeu, cousas que são mais do que tuas por uma razão jurídica e legal, mas que em todo caso estão fora de ti, como é que não podes vender tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais que tuas, porque são tua própria consciência, isto é, é tu mesmo? Pois não há mulheres que vendem teus cabelos? Não pode um homem vender uma parte de teu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão este privilégio, por que nega-lo ao caráter, à porção moral do homem?

Mas não se esqueça de ser hipócrita, — pregava sorrindo, — de fingir defender tua amada terra, teu país, quando queres, na verdade, iludir tuas ovelhas. E para arrematar sua nova ordem, definiu o Satã, “cortar toda solidariedade humana. Com efeito, o amor ao próximo era um obstáculo grave a sua instituição”. Afirmou que essa regra “era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se deve dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos ódio ou desprezo.” Unicamente dever-se-ia, no máximo, amar as mulheres dos outros, porque este amor era pura e simplesmente um amor ao próprio prazer e por último sacramentou, tire o máximo que puderes do povo, dos seus discípulos, por quanto mais o sofrimento é vivido, mais terão que recorrer a mim.

E assim fez-se a nova religião.  

*1 - Qualquer semelhança com os templos evangélicos é mera coincidência.

*2 – Texto é baseado com “chupadas” do conto de Machado de Assis “A Igreja do Diabo”.

Chupada é um antigo vernáculo muito usado em publicidade e propaganda que dizia que, na prática, “nada se cria, tudo se copia”, né?  

   

     

   


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